GERAL
Volta às aulas: o cuidado emocional também faz parte do material escolar
   

Por Kelly Krasuski, psicóloga
13/02/2026 09h43

Com o retorno às aulas, crianças e adolescentes retomam a rotina de estudos, reencontram colegas, conhecem novos professores e se deparam com desafios que estimulam crescimento e aprendizado. Esse período, marcado por expectativas e novidades, costuma ser associado à compra de materiais escolares, à organização da mochila e ao planejamento da rotina. No entanto, tão importante quanto cadernos, livros e uniformes é o cuidado com a saúde emocional dos estudantes. O bem-estar psicológico é parte essencial do “material escolar” e exerce influência direta na aprendizagem, na socialização e no desenvolvimento saudável.

A volta à escola representa uma transição. Mesmo para aqueles que já estão habituados ao ambiente escolar, o retorno após as férias exige readaptação aos horários, às regras e às responsabilidades. Para crianças pequenas, que ainda estão construindo sua autonomia, a separação dos pais pode despertar insegurança. Já para adolescentes, o início de um novo ano pode trazer preocupações com desempenho acadêmico, pertencimento ao grupo, mudanças corporais e expectativas sociais. Cada faixa etária vivencia esse momento de forma singular, e compreender essas particularidades é fundamental para oferecer o suporte adequado.

A adaptação escolar pode despertar sentimentos diversos: entusiasmo, curiosidade e alegria pelo reencontro com amigos, mas também ansiedade, medo, insegurança ou até resistência. Mudanças de turma, professores, colegas e horários costumam impactar principalmente os alunos menores ou aqueles que passaram por transições recentes na família, como mudança de cidade, separação dos pais, chegada de um irmão ou perda de alguém próximo.

É importante que pais e responsáveis estejam atentos aos sinais comportamentais que podem indicar dificuldade de adaptação. Alterações no sono, irritabilidade, queixas frequentes de dor de cabeça ou dor de barriga sem causa orgânica aparente, recusa persistente em ir à escola, choro excessivo ou isolamento podem ser formas de expressar emoções que a criança ainda não consegue verbalizar.

Como psicóloga, destaco que os pais e responsáveis têm papel fundamental nesse processo. O primeiro passo é abrir espaço para o diálogo. Perguntar como foi o dia, o que mais gostou, o que achou difícil, quem conheceu de novo. Mais do que fazer perguntas automáticas, é essencial ouvir com atenção genuína, sem julgamentos ou comparações. Validar os sentimentos dos filhos — dizendo, por exemplo, “Eu entendo que você esteja nervoso com a nova turma” ou “É normal sentir saudade nas primeiras semanas” — transmite segurança e fortalece o vínculo. Quando a criança percebe que suas emoções são acolhidas, aprende que pode confiar e buscar apoio.

Outra estratégia importante é organizar gradualmente a rotina antes mesmo do início das aulas. Ajustar horários de sono, retomar hábitos de leitura, estabelecer momentos para tarefas e lazer contribui para uma transição mais tranquila. A previsibilidade gera sensação de controle e reduz a ansiedade. Além disso, envolver a criança na preparação do material escolar, na escolha da mochila ou na organização do espaço de estudos ajuda a criar expectativa positiva em relação ao retorno.

A parceria entre família e escola é outro pilar essencial. Professores e equipe pedagógica também observam comportamentos e podem contribuir com informações importantes sobre a adaptação do aluno. Manter comunicação aberta, participar de reuniões e compartilhar eventuais dificuldades ajuda a construir estratégias conjuntas. Quando criança ou adolescente percebe que família e escola caminham na mesma direção, sente-se mais seguro e amparado.

Para adolescentes, a volta às aulas pode estar associada a desafios mais complexos, como pressão por escolhas profissionais, vestibular, comparação nas redes sociais e busca por identidade. Nesse contexto, o diálogo aberto e o respeito à individualidade tornam-se ainda mais importantes. É essencial que o jovem sinta que pode compartilhar dúvidas e angústias sem medo de críticas. O apoio emocional fortalece a autoestima e contribui para decisões mais conscientes e equilibradas.

Que este início de ano letivo seja marcado por acolhimento, escuta e cuidado. Que possamos lembrar que cada criança e cada adolescente carrega uma história, expectativas e emoções que merecem respeito. Investir na saúde emocional é preparar o terreno para um aprendizado mais significativo e para relações mais saudáveis. Quando o estudante se sente seguro, valorizado e compreendido, sua capacidade de aprender se amplia, sua autoestima se fortalece e seu potencial floresce.

Mais do que garantir boas notas, nosso compromisso deve ser formar indivíduos confiantes, resilientes e capazes de lidar com os desafios da vida. O material escolar é importante, mas o que realmente sustenta o processo educativo é o suporte emocional oferecido diariamente por família, escola e profissionais de saúde. Que a volta às aulas seja, acima de tudo, um recomeço cheio de possibilidades, crescimento e esperança.


   

  

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