CIDADES
Um em cada quatro brasileiros ainda não sabe que o câncer pode ser prevenido
   
Comportamento do paciente pode prevenir até um terço dos tumores

Por ROS
15/06/2026 08h58

Um em cada quatro brasileiros (27%) ainda não sabe que o câncer pode ser prevenido, segundo um levantamento inédito sobre o que a população sabe, pensa e faz em relação à doença. O país deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

O dado integra o relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer. Realizada pelas organizações Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do Inca, a pesquisa ouviu 6.566 adultos de todos os estados em setembro e outubro de 2025.

O estudo mostra um retrato desigual: enquanto o tabagismo e a exposição solar excessiva são amplamente reconhecidos como fatores de risco para o câncer (por 90,5% e 88,3%, respectivamente), outros igualmente relevantes e com farta evidência na literatura científica permanecem subestimados.

Por exemplo, só 27,5% das pessoas associam o consumo de carne vermelha ao aumento da chance de desenvolver câncer; 48,3% reconhecem o sedentarismo como fator de risco, e 54,1% relacionam excesso de peso à doença.

Para os pesquisadores, o contraste reflete o sucesso histórico das campanhas antitabaco, a ausência de mobilização semelhante em relação a outros determinantes e a necessidade de avançar sobre eles.

“O reconhecimento do cigarro como fator de risco é fruto de décadas de políticas públicas, campanhas massivas e medidas regulatórias”, afirma Luciana Grucci Maya Moreira, chefe da área técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Inca.

Segundo ela, a informação é condição necessária, mas, sozinha, insuficiente. “Não basta a população saber. É preciso criar ambientes que permitam escolhas saudáveis. Isso envolve regulação, preço, tributação, rotulagem e políticas públicas intersetoriais.”

Fatores de risco

A pesquisa também mostra que as pessoas superestimam o peso dos genes no desenvolvimento do câncer. Enquanto 89,4% dos entrevistados apontam a herança genética como fator de risco, as evidências mostram que ela responde por cerca de 5% a 10% dos casos. Já fatores modificáveis, como mudanças de comportamento e exposição ambiental, podem prevenir até 40% dos cânceres.

“Quando a genética é apresentada sem contexto, pode reforçar uma visão fatalista, como se o indivíduo estivesse condenado à doença”, diz Maya.

Luciana Sardinha, diretora-adjunta de doenças crônicas não transmissíveis da Vital Strategies, afirma que esse fatalismo é um dos obstáculos centrais à prevenção. “Se a pessoa acredita que o câncer é inevitável, perde-se o estímulo para mudar hábitos e cobrar políticas públicas.”

Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, é preciso olhar para os ambientes onde as pessoas vivem e fazem as escolhas que impactam sua saúde diariamente e integrar ações que vão desde a regulação e a taxação de alimentos nocivos até os sistemas de saúde, proteção social e educação.

De acordo com o estudo, as bebidas alcoólicas, os alimentos embutidos, como presunto, salsicha e peito de peru defumado, e os produtos ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinho de pacote e sorvete, são reconhecidos como fatores de risco para câncer por 71,3%, 70,7% e 65,6% dos entrevistados, respectivamente.

Suplementos

Outro dado chamou atenção das pesquisadoras: 61,3% dos brasileiros acreditam, equivocadamente, que suplementos vitamínicos ajudam a prevenir câncer. Na opinião de Maya, o resultado é reflexo de anos de marketing agressivo da indústria.

“A população foi exposta durante muito tempo à ideia de que suplementação significa promoção de saúde. Mas as evidências mostram que a prevenção está na alimentação baseada em comida de verdade, frutas, legumes, verduras e alimentos minimamente processados.”

Ela ressalta que suplementos só devem ser indicados em situações clínicas específicas, sob orientação profissional.

O estudo revela ainda que renda e escolaridade influenciam diretamente a percepção de risco e a adoção de hábitos saudáveis. Entre pessoas com renda de até R$ 2.000, apenas 45,5% reconhecem o sedentarismo como fator de risco, contra 59,6% entre aqueles com renda superior a R$ 10 mil.

Para as pesquisadoras, a principal mensagem da pesquisa é que o câncer precisa ser definitivamente incorporado ao debate sobre doenças preveníveis. “Prevenir câncer não é apenas parar de fumar ou fazer mamografia”, diz Maya. “É reconhecer que alimentação, atividade física, álcool, peso corporal e ambiente regulatório também determinam quem adoece e quem poderia não adoecer.” (As informações são da Folha de S. Paulo)


   

mode_emailEnviar E-mail

  Fechar E-mail

  

menu
menu

Nós e os terceiros selecionados usamos cookies ou tecnologias similares para finalidades técnicas e, com seu consentimento, outras finalidades, conforme especificado na política de cookies.
Você poderá consentir o uso de tais tecnologias ao usar o botão “Aceitar”. Ao fechar este aviso, você continua sem aceitar.

SAIBA MAIS

Aceitar
Não Aceitar